Se você olha para a lista de livros mais vendidos no Brasil e não reconhece quase nada, o problema não é seu. Em abril de 2025, três livros de colorir apareceram entre os dez primeiros, e os índices de leitura seguem caindo.
O que a lista de livros mais vendidos no Brasil mostra
A lista de livros mais vendidos no Brasil em abril de 2025, publicada pela PublishNews, tem três livros de colorir entre os dez primeiros colocados. Do Dia para a Noite ficou em primeiro lugar, Dias Quentes em segundo e Isso e Aquilo em terceiro. É um retrato do consumo, não do hábito de leitura.
O ranking mensal da PublishNews reúne dados de livrarias, redes e varejo online. Isso significa que ele mede unidades vendidas em canais monitorados, com pesos e metodologia próprios. Não é uma pesquisa de leitura, e não mede quantas pessoas terminaram os livros que compraram.
Os outros sete títulos da lista são livros tradicionais: Café com Deus Pai, Mais Esperto que o Diabo, Caminhos da Esperança, O Poder da Autorresponsabilidade, Faça Direito Faça Dinheiro e Café com Jesus. A mistura de colorir, religião e finanças pessoais chama atenção justamente porque são públicos diferentes comprando ao mesmo tempo.
Uma ressalva importante: a posição exata de cada título pode variar conforme o recorte mensal e os canais incluídos. Semanas diferentes produzem listas diferentes, então trate o ranking como uma fotografia de abril, não como uma tendência permanente.
A diferença entre a lista de 2025 e a década de 1950
A comparação entre os best-sellers de 2025 e os da década de 1950 é enganosa porque os dois rankings foram construídos com métodos diferentes. Em 1950, não existia Amazon no Brasil e a maioria das casas tinha rádio, não televisão. Quem comprava livro era quem tinha dinheiro para entrar numa livraria.
Esse ponto aparece no vídeo do canal Eslen Delanogare, publicado em 16 de julho de 2025. O apresentador lista títulos das décadas de 1950 a 1959 com base no Goodreads, plataforma de catalogação e avaliação de livros mantida pela Amazon. Isso é diferente de vendas: o Goodreads registra popularidade entre usuários cadastrados.
Compare os dois conjuntos de dados:
Colorir conta como leitura?
Livro de colorir não é leitura no sentido de processar texto argumentativo, mas também não é inútil. Ele ocupa a categoria de livro por razões fiscais e comerciais, e virou fenômeno de consumo entre adultos que buscam relaxamento. O ponto central é outro: ele lidera um ranking de vendas, não de leitura.
A psicologia reconhece o colorir como atividade de atenção focada e redução de ansiedade em alguns contextos. Isso não o transforma em equivalente a ler um romance ou um ensaio. São atividades diferentes, com benefícios diferentes, e misturá-las no mesmo ranking distorce a conclusão sobre o que os brasileiros estão lendo.
A hipótese levantada no vídeo é que boa parte desses livros de colorir seja comprada por pais para os filhos. É uma hipótese plausível, mas não verificada. Sem dados de perfil de comprador, ela permanece uma suposição, não um fato.
Por que a queda de leitores preocupa mais que o ranking
O ranking chama atenção, mas o dado mais relevante é outro: a proporção de brasileiros que não lê. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, 40% das pessoas entrevistadas não haviam aberto um livro nos três meses anteriores. Esse número é mais estrutural que qualquer lista mensal.
O Instituto Pró-Livro realiza essa pesquisa a cada poucos anos, e ela é uma das principais referências sobre comportamento leitor no país. Os números cobrem não leitores, leitores esporádicos e leitores frequentes, com recortes por região, renda e escolaridade. É um retrato mais amplo do que qualquer ranking de vendas.
Ler pouco e ler mal são problemas distintos. Uma lista dominada por colorir e autoajuda não prova que a qualidade caiu, porque o ranking mede compra, não compreensão. Ele prova que o mercado se adapta ao que as pessoas efetivamente compram.
O que a Amazon mudou no acesso ao livro
A chegada de grandes varejistas online ampliou o acesso ao livro no Brasil, mas também mudou quem aparece nos rankings. Antes, o comprador precisava de uma livraria física por perto. Hoje, qualquer pessoa com internet e um cartão compra um título e ele entra imediatamente na contagem de vendas.
Esse efeito não é exclusivo do Brasil. A Amazon e outras plataformas alteraram a forma como best-sellers são medidos em vários países, porque a base de compradores deixou de ser limitada por geografia e renda local.
Isso não significa que o passado era melhor. Significa que os rankings antigos capturavam um grupo mais restrito e os atuais capturam um grupo maior. Comparar os dois sem ajustar a metodologia produz uma conclusão falsa sobre decadência cultural.
O argumento do saudosismo e seus limites
Dizer que o passado tinha leituras melhores é uma conclusão que os dados não sustentam diretamente. Os rankings da década de 1950 refletiam quem podia comprar livros, não o que a população inteira lia. Muita gente lia em bibliotecas públicas, e esses empréstimos não apareciam nas listas de vendas.
O apresentador do vídeo reconhece essa nuance, mas mantém a posição de que a situação piorou. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo: o acesso melhorou e a qualidade média do que se lê caiu. Só não dá para provar a segunda com a primeira.
Análises sérias de comportamento leitor precisam separar três coisas: quantas pessoas leem, o que elas leem e quanto elas compreendem. Um ranking responde apenas à segunda, e de forma parcial.
Como fazer essa comparação com dados confiáveis
Para comparar décadas sem cair em erro, você precisa de fontes com metodologias compatíveis. Ranking de vendas mensal, catálogo de popularidade em rede social e pesquisa domiciliar medem coisas diferentes. Misturá-los produz uma narrativa atraente e frágil.
Um caminho de análise em três passos:
FAQ sobre os livros mais vendidos no Brasil
- Quais foram os livros mais vendidos no Brasil em abril de 2025? Segundo o ranking da PublishNews, os três primeiros foram Do Dia para a Noite, Dias Quentes e Isso e Aquilo, todos livros de colorir. O restante da lista mistura títulos religiosos, de autoajuda e de finanças pessoais.
- Livro de colorir conta como leitura? Não no sentido de processar texto argumentativo, mas é uma atividade de atenção focada com efeitos relatados de relaxamento. Ele aparece no ranking porque é vendido como livro, não porque seja lido como um romance.
- Quantos brasileiros não leem? A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, aponta que 40% dos entrevistados não abriram um livro nos três meses anteriores. O dado é mais estrutural que qualquer lista mensal de vendas.
- A comparação entre 2025 e a década de 1950 é válida? Só com ressalvas. Os rankings de 1950 capturavam um público restrito, sem Amazon e com menos acesso a livrarias, então as bases de dados não são equivalentes.
- O ranking da PublishNews mede hábito de leitura? Não. Ele mede unidades vendidas em canais monitorados, não quantas pessoas terminaram os livros ou compreenderam o conteúdo.
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Referências e conteúdo complementar
Para acompanhar discussões sobre tecnologia, ferramentas e produção de conteúdo, o canal Dev Doido do canal do youtube publica análises práticas em vídeo. Também vale conhecer o CrazyStack, comunidade brasileira voltada a desenvolvedores e projetos técnicos.
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